A governança corporativa no cenário de crescimento do tamanho das empresas brasileiras

Em entrevista ao Valor Econômico, o economista Eduardo Giannetti da Fonseca avalia a evolução do poder de barganha das empresas brasileiras no cenário internacional e a importância da governança corporativa para o crescimento do mercado de capitais. Confira, a seguir, a entrevista na íntegra:

Empresas de grande porte fazem bem ao país, diz Giannetti

Por Graziella Valenti, de São Paulo
01/06/2010
O economista Eduardo Giannetti da Fonseca acredita que é bom para o Brasil o crescimento do tamanho das companhias, que passam a ser atores importantes no cenário internacional. Para o especialista, professor do Insper e PhD em Economia pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, o risco de as sociedades se tornarem reféns de grupos gigantes pode ser controlado com a disciplina do próprio mercado, tanto testando a competitividade das empresas quanto exigindo maior transparência.

foto de Eduardo Giannetti

Valor: Qual impacto econômico que a consolidação setorial e o “agigantamento” das companhias traz para o país?

Eduardo Giannetti: É uma notícia bem-vinda, essa do crescimento do número de empresas de grande porte no Brasil. A consolidação de posições fortes de mercado não ocorre só no Brasil. É uma tendência mundial. Traz grandes ganhos de escala e a possibilidade de uma atuação mais presente num mundo globalizado, que exige porte para se tornar um ator relevante. O que me preocupa no Brasil é o desaparecimento da classe média das companhias. A gente não vê muita renovação no segmento das pequenas e médias com potencial de se tornarem grandes. Há um vácuo no segmento intermediário. Não se vê, por exemplo, um movimento como o da Microsoft, que nasceu num fundo de garagem e em alguns anos se tornou a maior empresa de informática do planeta.

Valor: O senhor acha que a falta de renovação das médias ocorre por falta de cultura empreendedora ou por dificuldades do país?

Giannetti: Tenho uma resposta bastante segura para isso. Nós temos uma cultura empreendedora, eu não tenho a menor dúvida. O que nos falta é um ambiente de negócios que permita uma empresa que nasça pequena crescer com acesso a crédito. Apesar disso, temos um ambiente que não ajuda. Onde estão os problemas, então? No mercado de trabalho, no sistema tributário, regulamentação mal desenhada em muitos setores, defesa de propriedade intelectual. Essa é a grande nódoa da vida econômica brasileira. Nós não podemos nos resignar e achar que isso faz parte de uma economia de mercado.

Valor: O sr. acredita que o acesso a recursos via mercado de capitais pode ser uma saída para alguns desses problemas?

Giannetti: Uma empresa formal de pequeno e médio porte quase não tem acesso ao BNDES, que é o único financiador de longo prazo. É uma situação de estrangulamento de financiamento. Difícil para formação de capital. O mercado é parte da resposta. Mas seria ingênuo imaginar que é toda. Precisamos resolver uma série de problemas, como nossa política de formação de recursos humanos, entre outros.

Valor: Pensando nessa polarização de companhias gigantes e pequenas, o que pode acontecer no longo prazo?

Giannetti: Não há renovação. Há esgotamento. Há um limite para crescer. Por que uma companhia eficiente não continua crescendo indefinidamente até abarcar toda economia? Porque passa a enfrentar ‘deseconomia’ de escalas. A desvantagem de ser grande é que os processos decisórios vão ficando mais complexos. A empresa pode perder agilidade nas decisões. Com estruturas muito verticalizadas, ela pode perder propriedades competitivas. Empresas menores, mais enxutas e mais ágeis vão se tornando mais competitivas.

Valor: Quando as companhias crescem muito, não ficam grandes demais para quebrar, colocando em risco economias inteiras?

Giannetti: O mercado é um ambiente disciplinador. O problema é contestabilidade do mercado. Se uma empresa que tem um poder de mercado enorme dentro de um país, o Brasil, por exemplo, começa a cobrar mais do que deve pelos seus produtos, é importante que esse negócio possa rapidamente ser contestado pela importação.

Valor: Como tentar controlar o risco dessas grandes companhias não quebrarem, não só por ineficiência de negócio, mas problemas de gestão e fraudes?

Giannetti: Aí o mercado de capitais tem seus critérios muito fortes de transparência. Mas é importante, em principio, que, numa economia de mercado, toda empresa possa quebrar. Não dá para controlar isso querendo impedir que uma companhia cresça e se torne importante. Não é por aí. É pela transparência. É pela disciplina do mercado. É um problema de governança.

Valor: Na medida que são maiores e representam riscos para a sociedade como um todo, possuem um dever de transparência maior?

Gianetti: Sim, ela perde a liberdade da insignificância. Veja como foi grave o que ocorreu nos Estados Unidos, com as montadoras. Elas praticamente chantagearam o governo, pois não podiam quebrar. É grave isso. Não é previsto no funcionamento de uma economia de mercado. O pequeno empreendedor não tem esse benefício e nem o trabalhador que perdeu o emprego.

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